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Os meus heróis: Robert Preston, o amigo franco e leal

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.09.10

 

E aqui vai outro dos meus heróis, Robert Preston, o actor-personagem da franqueza mais desarmante e da amizade leal. Se o viram como eu em vários filmes devem ter reparado nesse olhar tão despido de artifícios ou sombras. Mesmo a enfrentar uma rejeição, e uma rejeição sem-cerimónias como aquela da Debbie Reynolds em How West was Won, Robert Preston não desarma, insiste com a mulher mais teimosa e arisca que tinha encontrado, que ele é que a saberá apreciar. Ainda por cima irá conhecer o seu rival e verificar que aquela mulher escolhera o homem errado, um homem que não a merece. Estas coisas acontecem, aliás estão sempre a acontecer, e não é só às mulheres, aos homens também. Desencontros, equívocos, atracções fatais.

 

Mas vamos começar pelo princípio. Porque fui eu buscar Robert Preston ao baú das memórias? Nem eu sei, mas este actor teve desde logo um efeito tranquilizante, aquele ar franco, sem artifícios, mesmo nesse insólito papel no Victor, Victoria. Nunca resisto a rever as cenas com o Robert Preston, aqui na pele de um velho drag queen, amigo leal e criativo da Julie Andrews. Desde a cena do restaurante, dois esfomeados em Paris, até ao espectáculo em que, vestido de sevilhana, canta e dança no palco. Robert Preston é o amigo das horas difíceis, criativo, divertido e generoso. Dirá sempre o que pensa, sem subterfúgios nem evasões.

 

Outro dos seus papéis mais enternecedores é muito pouco conhecido. Vi-o uma única vez na televisão, talvez nalgum ciclo dos anos 90. O próprio filme, Finnegan Begin Again, é já dos anos 80. Nele vemos um Robert Preston sessentão que se apaixona por uma mulher muito mais jovem, Mary Tyler Moore. O filme é uma magnífica inspiração para quem não quer desistir de comunicar de forma afectiva, de apoiar e ser apoiado, animar e ser animado. Encontram um no outro o apoio e o carinho. Finalmente, o Robert Preston tenta mostrar à Mary Tyler Moore que a sua diferença de idades é um problema real. A cena final foi a que registei na memória para sempre. Vemo-los deitados no chão da sala, muito descontraídos, pelo menos é assim que recordo a cena. Ele diz-lhe: Mas eu estou a cair do tripé... Ela responde: Prefiro dois anos contigo do que dez com outro homem. Se esta não é uma magnífica declaração de amor, então o que é?

 

Identifiquei-o mais recentemente num pequeníssimo papel, num filme que desconhecia e que aqui coloquei a navegar, Reap the Wild Wind. Ainda muito jovem mas já com aquela voz inconfundível.

Essa é a sua marca registada, aquela voz... uma voz grave, cantante, que nos assegura que podemos contar com ele. Uma voz assim que nos anima quando queremos desistir, que nos ajuda a ver um caminho possível. É isso que esperamos de um amigo franco e leal. Que nos ouça nas horas tardias e nos enxugue as lágrimas, como naquela magnífica cena do Victor, Victoria, quando a Julie Andrews descobre que o vestido tinha encolhido.

Ao longo destes anos de filmes tê-lo-ei visto em mais um ou dois, mas ainda não consegui identificá-los. Já corri a lista do IMDB, mas nem assim... Descobri, no entanto, que fez muita Broadway (não admira) e muita televisão (não sabia).

Robert Preston é um dos actores que me marcaram para sempre, como se fossem personagens com que interagi na vida real. O seu olhar, o seu rosto largo, e a sua voz magnífica...

 

 

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publicado às 21:39

A atmosfera poética do Cinema dos anos 60

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.01.10

 

Diz-se de quem ama o Cinema que é cinéfilo, mas eu nunca me incluí nessa classificação. Não me considero cinéfila e amo o Cinema.

Não pertenço a nenhum grupo de fãs, não colecciono filmes como alguns amigos, não assino revistas de cinema, não estou a par das estreias e desconheço os nomes dos realizadores e actores mais recentes, uma vergonha.

Mas posso dizer que amo o Cinema, que por ele me deixei fascinar e que ainda me hipnotiza, a sua atmosfera, a sua tonalidade, os diálogos, os sons...

Para mim é um mundo tão real como aquele em que me movimento, e tão vivo como este. Pode soar-vos estranho, uma excentricidade, mas aprendi imenso a ver filmes, aprendi por exemplo que não estamos limitados a esta mediocridade que nos rodeia, que há um mundo possível se o quisermos inventar, onde podemos respirar livremente, viver plenamente.

 

Desde os primeiros musicais que vi a preto e branco até aos épicos, aos westerns, às comédias, que o Cinema me prendeu para sempre. Entrou no filme, diziam de mim lá em casa, pois concentrava-me de tal forma que não ouvia ninguém.

 

Certamente que este To Kill a Mockingbird o terei visto na fase impressionável porque as cenas me pareceram familiares, aquela cidadezinha perdida no sul, os argumentos do advogado Atticus no tribunal em defesa do jovem negro, o ambiente, por vezes sufocante por vezes acolhedor, de um mundo isolado e dividido.

Uma das originalidades do filme é a utilização do narrador a recordar esse verão, em que era apenas uma rapariguinha de seis anos: Scout, filha de Atticus. É pelos seus olhos e das outras crianças, o seu irmão Jem e o primo Dill, que vamos acompanhando aquele caso terrível de ignorância, intolerância e racismo de uma comunidade fechada, no tempo da depressão.

O rapaz negro, injustamente acusado de violar uma rapariga branca, não terá hipótese com um júri formado apenas por brancos. O final já se adivinha, mesmo antes de o sabermos.

 

Atticus é a personagem-herói típica, da natureza dos heróis que apenas cumprem o seu dever, apenas assumem a sua responsabilidade. Dele dirá a sua governanta, sentada nas escadas à porta de casa com as crianças: Há pessoas que fazem por nós a parte desagradável, como o vosso pai.

 

Comoventes algumas cenas: o filho que insiste em acompanhar o pai quando vai dar a má notícia à família. A forma como o vê enfrentar pacificamente a agressividade do pai da rapariga branca. As duas crianças a atravessar o bosque e a ser atacadas por esse homem agressivo, e depois salvas pelo Boo, o homem que consideravam louco e até perigoso. A rapariguinha a pedir ao Boo para se despedir do Jem que dorme, a salvo, depois do ataque que lhe fracturara um braço. O Xerife a decidir não acusar Boo, uma vez que as contas estão saldadas, uma morte pela outra. E a frase mais poética: Seria como matar um passarinho.

 

Se pensamos que há inovações em Cinema, estamos muito enganados. Já foi tudo experimentado. A inovação está simplesmente na tecnologia, nos efeitos especiais. E mesmo que se tente melhorar a técnica, a atmosfera é irrepetível. Não sei explicar isto melhor. Havia uma qualidade no Cinema dos anos 60 que se terá perdido na década seguinte: uma frescura, uma verdade, uma simplicidade, uma emoção que não se sabe de onde vem...

Ou então sou eu que transporto essa vivência só minha para o filme e já não os sei distinguir...

 

Também na utilização do narrador filosófico que nos deixa mensagens, e que agora é frequente em diversos filmes e séries televisivas. Vemos Scout levar Boo pela mão para a casa onde ele vive, isolado, e dizer-nos: Só conhecemos alguém se vestirmos a sua pele por uns tempos... As crianças tinham descoberto um amigo, um aliado, em alguém que tinham considerado louco e perigoso, só porque era diferente.

 

Curiosidades: consegui identificar o Robert Duvall na pele de Boo! Muito mais jovem, claro. Não é fácil, pois o rosto altera-se,  mas há pequenas nuances para alguém muito atento.

Nesta personagem vi de certo modo o Eduardo Mãos de Tesoura de Tim Burton. E na própria atmosfera do filme, sente-se já a antecipação de realizadores actuais que revelam uma sensibilidade semelhante. É como se este Cinema lhes tivesse aberto o caminho, a essa nova sensibilidade.

 

Que mais posso eu dizer sobre esta pequena obra-prima? Que é mais um filme baseado num livro premiado com um Pulitzer. Com um guião muito bem concebido. E uma realização impecável. A fotografia, a montagem, os diálogos, a narração, a banda sonora... de tirar a respiração. E os actores, bem, perfeitos.

 

 

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publicado às 01:57

As Neves de Kilimanjaro

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.12.07

 

O homem espera ansioso e febril. Uma ferida estupidamente infectada. A mulher não se conforma com o desfecho iminente. África como ponto de viragem na vida daqueles dois.

No meio da febre, memórias poéticas e trágicas. A juventude vivida intensamente, sem medir consequências. Passagem pela mítica Espanha, sonhos de heroísmo, mortes sem sentido. E amores antigos ainda vivos. Estranhamente ainda vivos.

Os homens e a sua necessidade de medir forças com o mundo e consigo próprios, como se estivessem sempre inquietos, à procura de qualquer coisa. Sempre a arriscar a vida, no limite.

E é esta mulher, a que está agora ao seu lado, que o tenta proteger, de forma quase maternal. É esta mulher, que ele afasta de forma inconsciente, que luta agora com todas as suas capacidades, inteligência, determinação, para lhe salvar a vida.

Nesta luta a mulher ganha. A vida ganha. O homem acorda e não será apenas da infecção. Olha-a como se pela primeira vez. Hemingway também lutava consigo próprio à procura da ideia exacta, do texto exacto. O que escreve, como escreve, revela essa luta constante. Como uma tourada, vida e morte, sem tréguas.

 

 

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publicado às 16:22


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